Alice no país das realidades

Alice, branca, nordestina, advogada, casada e com seus 20 e tantos anos com certeza é uma dessas pessoas que cresceu com umas ideias malucas na cabeça.

Alice costuma incomodar por onde passa. Costuma chocar com a sua maneira diferente de ver a vida. Divertida para uns, exótica para outros, completamente sem noção para uma boa parte. Alice, classe média e estudante a vida inteira em colégios particulares tem poucos amigos negros ( pensando bem, não tem nenhum), a maioria dos amigos dela não tem noção do que é passar necessidade na vida.

Alice, apesar de não ter vindo de uma família rica também sempre teve de tudo, mas isso não impediu que ao se mudar para São Paulo com seus oito anos de idade ouvisse dos professores que precisava de atenção especial simplesmente por ser nordestina. Não precisava. Também nunca impediu que as pessoas fizessem graça com o sotaque e dessem a ela diversas naturalidades, de gaúcha a paraibana, passando por carioca. Nunca a dela de verdade.

Alice ficava pensando o que deveria acontecer com aqueles que eram mais marginalizados do que ela. O que acontecia com que ousava ser diferente?

E assim, Alice cresceu. Entre o mundo da classe média durante a semana e o da pobreza aos finais de semana na periferia de sua cidade natal brincando com umas amiguinhas num quarto e sala dividido com pai, mãe e três filhos, sem saneamento básico, sem asfalto, sem brinquedos caros.

É claro, que dessa forma Alice jamais poderia ter se tornado normal. Como a maioria diz por aí, Alice cresceu “tantam das ideias” e hoje em dia defende o aborto, é contra a terceirização desvairada, a redução da maioridade penal, é a favor das ciclovias, das cotas para negros nas universidades públicas, do beijo gay em horário nobre e até da adoção de crianças por casais homossexuais. Alice, parece querer chocar o mundo com tanta ideia radical por aí.

Mas a verdade é que o mundo chocou Alice muito antes de qualquer coisa. Toda vez que ela fazia o caminho da casa dela até a escola e atravessava a cidade vendo a pobreza e a riqueza extremas convivendo lado a lado. A verdade é que o mundo chocou Alice quando esta viu uma porção de pessoas que nunca trabalharam na vida, chamando grevistas de vagabundos. O mundo chocou Alice quando alguém subiu o vidro do carro por que um negro se aproximava. A verdade é que o mundo chocou Alice quando esta viu o Estado massacrar professores que buscavam condições dignas de trabalho ou até mesmo quando viu inocentes morrerem pelas balas da polícia, ou ainda quando foi testemunha de um Judiciário desonesto e sujo.

O mundo chocou Alice muito antes e o mundo de Alice nunca mais pôde ser o mesmo. Alice não podia ignorar todas as desigualdades, apenas por que a sua casa tinha muros tão imensos que mal se conseguia olhar a rua. Não era aquele mundo que ela buscava, nem que ela sonhava. Alice não queria ser mais uma refém do ideal de “vencer na vida”. Alice preferia ser uma perdedora. Alice estava disposta a abrir mão de muitos de seus excessos se isso fosse necessário. Alice estava disposta a ceder suas oportunidades para aqueles que nunca a tiveram. Alice, sonhava que um dia todos iriam sair da mesma linha de saída em direção a mesma linha de chegada e com as mesmas condições de competição.

Tudo bem que para isso ela precisasse abrir mão dos carrões poluentes que nos escravizam diariamente. Tudo bem que para isso fosse necessário abrir mão dos celulares cada vez mais caros equivalentes a metade da renda anual de uma família que recebe um salário mínimo. Tudo bem que para isso fosse necessário Alice lutar por Direitos iguais a todos. Alice, ainda era do time dos seres humanos e gostaria de ser tratada como tal. Agora ela se sente apenas um objeto dentro de uma linha de produção sem sentido e quando atingir o objetivo dos outros será descartada. Alice não desejava isso para si, nem para o seu filho e nem para você que está lendo esse texto.

Alice, no final das contas é considerada doida por que rema contra a maré. Por que não está desesperada pelo pote de ouro no final do arco íris que prometeram para ela, nem tampouco quer esfregar na cara dos outros oportunidades que só ela teve. Alice, quer cometer a insanidade de DIVIDIR sem precisar ostentar, de ser igual e por isso, ela é considerada assim “tantam das ideias”.

Alice vai em frente, que a gente está com você. Esse mundo nunca fora construído por pessoas normais.

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