Geração Y, com muito orgulho sim senhor!

Quase todo dia eu leio algum texto a respeito da geração Y. São vários e eles pipocam na minha timeline na velocidade da luz. Os títulos são vários, a temática é praticamente a mesma: a geração que virou escrava de si mesmo. Seja do anseio pela liberdade, seja do anseio pelas conquistas profissionais, somos acusados sempre da mesma coisa: irresponsáveis, inconsequentes e mimados.

Eu, como geração Y, não me sinto representada por quase nenhum desses textos. Vejo o mundo de uma forma bastante diferente. Talvez, a minha experiência possa ser distinta dos outros, mas eu ainda acho que não. A verdade é que a geração Y é que é diferente do que o mundo estava acostumado e como tudo que é diferente nessa vida, enfrenta grandes resistências.

Tenho em casa dois modelos: mamãe, é a tal representante da geração dos pais (nesses textos que vejo por aí). Funcionária pública desde sempre, a estabilidade é vida pra ela mesmo que o potencial dela esteja bem além da função que exerce. Papai, é o empreendedor. Teve alguns empregos formais aqui e ali, mas só deslanchou mesmo quando abriu o seu próprio negócio depois de velho e alcançou a liberdade financeira de verdade.

Meus pais quando tinham a minha idade não tinham o poder aquisitivo que eu tenho hoje. Aliás, eu li outro dia que os nossos pais “trabalhavam duro e ganhavam bem para sustentar 3 filhos, casa e cachorro” e eu discordo veemente disso. Sou classe média, nem alta nem baixa. Classe média, média mesmo. Vivi com os meus pais as dificuldades de sustentar a família. Lembro de épocas bem difíceis com meu pai desempregado ( por que a estabilidade não era a dele). E apesar de ter vivido uma infância feliz, a vida de sustentar até então uma filha e uma casa, não era nada fácil para eles. Trabalhavam muito sim, ganhavam bem? Nem tanto.

Mamãe tem 53 anos e ainda paga o financiamento imobiliário dela. Parcela após parcela igual a mim, com meus 26 anos. Os relatos que conheço da juventude deles é que ambos aproveitaram bem a vida, viajaram e passearam por que vierem de famílias que tinham uma boa condição financeira, mas, depois que os filhos apareceram, a gente até passeou, viajou e se divertiu, mas mamãe só realizou o sonho dela de conhecer Paris, agora, com seus 53 anos. Papai, nunca saiu do Brasil, e se fosse, com certeza iria pra Cuba rsrs.

Eu não sei se meus pais realizaram os sonhos que tinham. Mas se não o fizeram, eu tenho quase certeza que a culpa tem dois nomes e sobrenomes: DANIEL E DANIELLE MENEZES.

Mamãe e papai trabalharam muito mesmo. Mamãe tem com o meu irmão mais novo a tal da síndrome da mulher moderna, sabe!? A dor das mães que trabalham fora e passam pouco tempo com seus filhos. O trânsito, a vida caótica e tudo mais, a obrigava levantar cedo e sair antes de nós e voltar lá pelas 20h, quando o jantar em família já havia sido servido. Não vi nada de fácil ou de tranquilo na vida dos dois, mas meus pais fizeram a escolha deles (tenho algumas ressalvas sobre isso, mas é papo pra depois), escolheram ter uma família e dar tudo de bom e do melhor para nós. Valeu papais!

Aí veio a tal geração Y. Eu me considero uma menina responsável. Entrei na faculdade tradicional. Estagiei desde o início e saí depois de cinco anos já empregada. Casei cedo, comprei meu primeiro imóvel cedo, meu carro e meus brinquedos do snoopy, mas almejo algo muito diferente de tudo isso. Fiz a opção de não ter filhos. Nunca Dani? me perguntam. E eu digo- nunca é muito tempo, mas por enquanto a minha escolha é outra.

Eu quero sim essa tal de liberdade da geração Y, por isso gasto meu rico dinheiro do trabalho em viagens, restaurantes e passeios e me arrependo amargamente de ter trazido o peso do financiamento imobiliário tão cedo para a minha vida. Hoje me desfiz do meu carro, por que achei que ele era muito pra mim naquele momento e meu apêzinho tão ricamente mobiliado, está alugado por que eu fui atrás da tal liberdade que eu tanto quero. Todos aqueles bens materiais que me disseram que eu tinha que conquistar, não era a responsabilidade que eu queria ter, entendem? Podia ser o sonho de consumo dos meus pais na geração deles, mas não, não é o meu sonho de consumo na minha geração.

O que eu vejo é que a geração Y talvez esteja perdida, por que muitos deles foram condicionados a viver como os pais mas perceberam que não precisavam. Ou que não querem. Os pais deles, proporcionaram algo de muito valioso: o poder da escolha. Não precisamos formar nossas famílias tão cedo, nem sair da casa deles tão cedo, nem ser sérios tão cedo. Podemos ter a nossa responsabilidade reduzida a ter um emprego e fazer nossa poupança seja lá para qual sonho for. Tem um monte de amigo meu ganhando bem o suficiente para comprar seu apartamento, mas não o fazem por que acham que não é o que esteja faltando na vida deles.

E com isso, eu acho que eu chego no ponto primordial: vida profissional. Os pais da gente ( ou grande maioria) queria a estabilidade. O sonho da minha mãe é que eu fosse uma funcionária pública e, o fato de eu ter meu próprio escritório de advocacia que vai muito bem obrigada, é motivo de preocupação. A geração Y não entende que um bom emprego seja apenas um bom salário. Eles querem desafios, eles querem diversão, eles querem flexibilidade. Muitos até aceitam ganhar menos se tiverem tudo isso e outros jogam carreiras promissoras para o alto por que se sentem entediados. É a geração dos nômades digitais. Fizemos uma descoberta mágica: conseguimos viver com muito menos do que achávamos precisar.

Hoje em dia, a gente quer ser definido por algo muito além da nossa profissão. Não quer ser a mãe funcionária pública, o pai médico, a tia advogada. A gente quer agregar adjetivos diferentes em nossas descrições e, tornar o nosso trabalho parte de nossas vidas e não A nossa vida, percebem a diferença?  É claro que as empresas não estão preparadas para isto. A maioria delas ainda é dirigida por pessoas da geração dos meus pais ou até dos meus avós. Eles não estão prontos para tanta liberdade, eles não estão prontos para o home office, eles não estão prontos para horários flexíveis de trabalho (mesmo que todas essas medidas fossem ótimas até para diversos problemas urbanos nos grandes centros). Não entendem muito bem como alguém consegue ser tão ou mais produtivo fora do escritório. Mas estão preparados para que a geração Y relativize as leis trabalhistas, por exemplo.

Para os nossos pais, o trabalho se reduzia as horas que passavam dentro da empresa. Para nós, hoje em dia que buscamos o brilho nos olhos naquilo que a gente faz, tudo pode ser trabalho, desde que a gente consiga integrar com os outros pontos da nossa vida. Chefe, eu trabalho no sábado sim. Estou indo pra praia, levo meu notebook e pego umas duas horinhas livres lá e faço isso, beleza!?

Eu, Dani, não atendo clientes por whatsapp. Fiz muito lá no comecinho, agora não mais. Por que eles invadem mesmo o meu espaço, mandam mensagens desnecessárias a todo momento e me criam uma ansiedade da qual eu não preciso. Mas principalmente, eu não respondo por whatsapp ou não atendo no final de semana, por que isso não é necessário no meu trabalho, e eu impus limites. Meu marido que trabalha com TI não tem horário. Ele passa finais de semana, ele vira noites, perde algumas coisas sim, mas é lindo o brilho nos olhos que ele tem enquanto tá lá se lascando com os outros amigos para resolver alguma pendenga. É claro que as vezes ele fica cansado e aí, não faz. Repassa para outro coleguinha, marca pra outro dia sei lá. Trabalhar muito para ele não é um problema, mas trabalhar muito sem ser reconhecido, sem plano de carreira, sem ter a flexibilidade de trabalhar home office na emenda de feriado e outras coisas do tipo, é, é um problema e tanto. Invertemos alguns valores um pouquinho.

A geração Y não é essa inconsequência toda. A geração Y apenas bate numa resistência das outras gerações que se acham melhores ( e isso acontece com todo mundo né). A nossa geração tem sonhos nossos, numa realidade diferente. Alguns se dobram e entram no jogo, outros assumem os seus próprios riscos, que embora não seja o de constituir uma família, são tão difíceis quanto. Ou vocês acham que é fácil segurar o rojão de largar tudo, colocar uma mochila nas costas e sair se virando por aí, enquanto todos olham com aquela invejinha torcendo para que ele se ferre e um tio velho possa dizer no natal ” eu sempre disse que essa história não ia dar certo?”. Com certeza não é.

Portanto minha gente, respeitem os sonhos da geração y. Respeitem os ideais, a vontade de ser livres. Nada disso é falta de responsabilidade, tudo isso é respeito em primeiro lugar com a gente e depois com o mundo. Não é abuso, nem mimimi, nem irresponsabilidade não querer que o mundo inteiro participe de suas decisões, elas cabem a nós e ponto, estamos sendo felizes desse jeito, entendam e fiquem felizes com a gente também, vai ser muito mais proveitoso. E eu tenho dentro de mim uma esperança bem Y mesmo. Acho que essa vontade que a gente tem de mudar as regras, os condicionamentos e o certo, pode ajudar a tirar a gente desse buraco que outras gerações nos enfiaram.

É isso!

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