Do dia em que eu desisti de ser advogada.

Desde quando me entendo por gente eu sou advogada. Desde criança essa era minha profissão.

Cresci, algumas dúvidas vieram, mas no final das contas passei a preencher o campo de profissão nos formulários por aí como advogada, sempre com orgulho.

Eu não fiz Direito para fazer concurso público. Eu não queria ser juíza, defensora pública, promotora ou qualquer outra coisa, eu queria ser advogada. E queria ter o meu próprio escritório. Eu achava que o sistema era ruim. Mas achava mais ainda que o sistema era ruim por que os profissionais não se esforçavam. Eu não. Eu ia me esforçar pelos meus clientes que eu escolhi que fossem pessoa física. A maioria dos meus clientes eram humildes – os melhores pagadores, diga-se de passagem. Quando envolvia empresa ou coisa do tipo, meu sócio fazia. Eu podia me dar ao luxo de escolher, era felicidade pura.

Eu montei meu escritório num prédio bonito, com um sócio maravilhoso. A gente decorou e ficou tudo muito lindo. Eu tinha vencido na vida. Era dona, fazia o que eu gostava e tinha um bom rendimento. Enquanto todo mundo falava do quanto não estava dando pra ganhar dinheiro na advocacia, eu tava tranquila, parecia estar favorável para a gente.
Mas aí uma questão surgiu. Infelizmente eu tenho um problema: dinheiro não é tudo pra mim. E ser bem sucedida profissionalmente também não é tudo pra mim. Eu fui tonta e entrei nessa por ideologia. Quando o meu cliente entra no meu escritório e me conta o problema dele, eu faço aquela ligação mental com a lei e tomo as dores. Como assim descumpriram algo tão básico? Inadmissível. E aí você parte pro judiciário e começa a perceber que tem que brigar mais do que pensava para que a lei simplesmente seja cumprida. Você não tá querendo ser vanguardista, mudar a constituição federal nem nada. Você só quer que a p** do código civil, do consumidor, do trabalhista, do tributário, seja cumprido. E você não consegue. E não é por incompetência, mas é por que esse mundo anda muito louco mesmo. Há uma inversão de valores. Vítima virou vilão. Esse povo todo quer ficar ingressando com ação agora? Vamos diminuir as condenações deles, ao invés de dar paulada nos grandes congolemerados que fazem bunda lelê pra justiça. E por aí vai. É uma história pior do que a outra. Se você for advogado, sabe do que eu estou falando. Se você não é, mas acessa o UOL semanalmente, também sabe.
O judiciário que deveria ser o órgão mais moral de todos se tornou o pior. Se tornou a podridão da divisão dos poderes de Montesquieu. Onera todos nós para que possamos sustentar seus luxos. Seus inúmeros benefícios. Tem desembargador recebendo até adicional de insalubridade por passar o dia no escritório – Sim, pode acreditar. Tem desembargador outro dia aí que ganhou R$600.000,00 no mês, se o teto é salário do presidente do STF, alguém me explica como isso acontece? Infelizmente eu sei e não gosto de acreditar.
Para uma pessoa como eu, o judiciário é pesado. O sonho é esmagado. Os problemas dos clientes são levados para casa, é terrível. Não adiantava o escritório bonito, o sócio maravilhoso, a renda legal, se o fruto do meu trabalho estava sendo podre pra mim. Eu poderia ter me tornado uma dessas pessoas que se contenta. Entende que a vida é assim mesmo, engole as ideologias e parte pra frente. Eu não consegui. E aí eu matutei por muito tempo. Pesei tudo que havia pra pesar e no final, eu resolvi desistir.
O peso da palavra “desistir” é muito grande. Para alguns (para a maioria né) é como se você tivesse fracassado, mas para mim não. Deu certo, deu muito certo. Fiz as coisas como eu achei que deveriam ser feitas, segui meus princípios e fui em frente. Eu prefiro desistir de uma profissão, do que desistir da minha vida, de mim mesma. Sou a primeira pessoa que preciso respeitar quando traço os meus planos de vida. A gente se acostuma a viver para os outros né!? Eu não quero.
Há beleza na mudança e no recomeço e fazer isso é para os fortes. Dá trabalho e pode até doer, mas não irá doer mais do que as frustrações que eu estava acumulando sendo advogada. Então, não irei carregar o fardo de derrota comigo, mas sim da reinvenção, da criatividade e, principalmente, da coragem.
Hoje eu desisti de ser advogada, tô ansiosa, mas tô feliz e é só isso que importa.
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Um comentário sobre “Do dia em que eu desisti de ser advogada.

  1. Super concordo.. parabéns por escolher Viver…e construir pra si o que te faz bem.
    Deu tudo ! Você respirou.. pensou e analisou uma realidade em várias profissões.
    Seu conhecimento técnico e pessoal, humano é um grande patrimônio.

    Curtido por 1 pessoa

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