0

O que acontece na vida adulta, com os apelidos da agenda telefônica?

Estou eu nesse domingo frio em Blumenau curtindo a minha solidão. A gente está sempre tão rodeado que às vezes esquecemos como é gostoso se afundar no sofá, pegar uma comida gostosa, ler um bom livro e deixar o celular com toda a sua urgência apitando loucamente, de lado!

Por motivos que eu nunca consiguirei entender, minha mente funciona de forma alucinada. Ela tá aqui comigo curtindo a solidão, daqui a pouco pensando sobre a fome na África e logo após escrevendo um texto mental para esse humilde blog. Ao invés de lutar contra isso, resolvi seguir o conselho do Universo, largar o livro e fazer uma das coisas que mais gosto nessa vida: Escrever.
Sempre falam “nossa Dani, você deveria ter sido jornalista” ou “nossa Dani, você deveria escrever um livro/blog/coluna” eu respondo dizendo que não tenho talento para formalismos. Eu não sei ser formal e o formalismo me entedia. Meus textos, mesmo os jurídicos eram cheio de informalidades e por tal motivo, eram reiteradamente corrigidos por chefes formais. Quando eu não tinha mais chefes formais, eles eram corrigidos sutilmente pelo meu sócio formal que escrevia emails com “prezado fulano” até quando o fulano era amigo dele rsrs!
Eu lembro que levei um choque quando eu vi o meu nome na agenda telefônica do Bruno quando ainda namorávamos. Estava escrito assim: Danielle Menezes. Bem frio mesmo. E eu disse: mas cadê o Baby? o amor?fofinha? pelo menos DANI. É pra gente ser brega, cara. E ele disse que ele mantem um padrão na agenda telefônica e só trabalha com nome e sobrenome. Engoli seco a revolta e o transformei em “BRUNO SANTOS” no meu celular..assim mesmo, bem grosseira.
.
Quanto mais eu fui chegando próximo da minha crise existencial com o mundo jurídico, mais eu ia percebendo que boa parte da minha agonia era o formalismo que me irritava. Vossa Excelência, Doutor, data venia, prezados, sério? Terninho, gravata, barba feita, sério? É o tipo de coisa que me entedia, mas que eu havia aprendido a conviver porque afinal de contas, eu era advogada e sabia o que ia me esperar desde o princípio. Mas aí, eu no auge da minha rebeldia pensei ” f** que o mundo jurídico foi sempre assim, ele não precisa continuar assim se a gente não quiser, não é mesmo?”. Educação é diferente de formalismo, Respeito é diferente de formalismo. Eu não preciso chamar o juiz de Vossa Excelência para evitar que petições sem correção escrito “aquele juiz é cuzão” sejam protocoladas indevidamente. E aí, eu passei a assumir o meu lado rebelde esperando o dia de ser “punida” por isso. Não aconteceu. Talvez as pessoas dêem mais ênfase a teria do formalismo do que exista de verdade. O fato é que o judiciário está tão abarrotado, mas tão abarrotado, que poucas pessoas tem tempo para prestar atenção que eu fui fazer audiência de tênis, jeans escuro e tatuagens a mostra. Saí de lá com meu cliente feliz, então, se ele reparou nisso tudo quando chegou, já havia esquecido da minha aparência e o juiz, ah, tadinho, mal olhou para o lado que dirá para o meu calçado. Mas não é só isso que deveria importar?? Pessoas civilizadas resolvendo um problema e profissionais preocupados em fazer um bom trabalho? Eu, na minha mente rebelde, acredito que sim.
.
Aos poucos, meu sócio formal que fica incrivelmente elegante de terno passou a ser prático também. Ele deixava a roupa de advogado dele guardada no escritório caso surgisse alguma audiência ou cliente de última hora, mas começou a se locomover de calça jeans, camiseta e tênis. Muito mais prático e fresquinho. Era bem menos bonito é claro, mas tem hora que a gente tá mais preocupado em não suar como um porco do que ficar elegante de gravata no transporte público, não é!? E eu, fui me tornando mais e mais avessa a burocracias e formalidades. Eu não acho que elas precisem existir para as coisas andarem corretamente. Eu acho que a gente precisa ter noção de respeito, responsabilidade, pontualidade e até hierarquia quando ela existe, mas a gente não precisa ser tão formal. Não precisamos ser tão formais em rodas de amigos, ficar falando de trabalho, parecer sérios e responsáveis o tempo todo.  Até agora os melhores grupos de amigos que formei foram aqueles em que as pessoas se permitiram serem “ridículas”. Fazer sons constrangedores, cantar desafinada, dançar desgovernadamente, contar histórias nada engrandecedoras. Quando as pessoas relaxam e não tentam se comportar como se estivessem numa entrevista de emprego o tempo todo a gente enxerga melhor quem são elas. Os pontos de vista, as ideias, até o caráter é melhor avaliado. Sem máscaras, por favor!
E talvez, por essa minha aversão ao formal ( e não aversão pelas regras, são coisas bem diferentes) é que meu marido insista em rir das minhas conversas com pessoas que acabo de conhecer. Ou ainda das polêmicas que lanço em grupos que acabei de chegar. Ele acha divertido, por que já se acostumou. Ele acha divertido porque fica só analisando a expressão facial dos outros. Eu acho cansativo. Eu acho cansativo ter que ficar me podando o tempo todo ou por algum espaço de tempo até analisar se já tenho intimidade ou não pra falar o que eu falaria normalmente e que nem iria ofender ninguém. Eu posso estar num ambiente descontraído falando de coisas sérias, porque a minha essência não muda com o ambiente, e espero que a de vocês também não. Se, por acaso, alguem precisasse da minha ajuda como advogada e eu estivesse vestida de festa junina por exemplo, o meu conhecimento jurídico continuaria sendo o mesmo e é isso que importa!
Quanto mais eu paro pra pensar o que me levou a ser quem eu sou hoje, mais percebo que numa mistura de histórias eu me tornei uma pessoa com qualidades,objetivos e defeitos fora dos padrões tentando se encaixar em lugares que não foram feitos para mim. E, num determinado momento cansei de forçar a barra e resolvi viver a vida assim livre, leve, solta ,mas com regras, horários, responsabilidades e objetivos impostas po mim e não por alguém num determinado momento do Universo que eu nem sei qual é.
E é isso, voltarei a minha solidão..bom domingo para voces!
PS: Devo confessar que fui derrotada na batalha da agenda telefônica e, com medo dos possíveis assaltantes que, possivelmente poderão levar o meu celular embora a qualquer momento, eu também passei a trabalhar com nomes e sobrenomes para eles não saberem quem é meu irmão ( embora não seja dificil de notar), marido, pai, mãe e talz. Formalismo = neura.
Anúncios