Olimpíadas e o nosso patriotismo de ocasião.

Eu confesso que estava perdida no calendário olímpico. Havia combinado de ir ao Rio de Janeiro visitar uns amigos e quando fui ver as passagens quase morri. Foi quando me dei conta, que a época era a mesma dos jogos e que, logo logo, o país iria estar inundado de gringos.

Nesse ano, eu não entrei muito em discussões a respeito da viabilidade do evento ou não. Lembro que na Copa do Mundo, fui uma defensora mais convicta. Sabia ( como infelizmente todo brasileiro sabe) que o governo ia roubar muito. Sabia que um monte de obra não ia estar pronta, mas tentava olhar o copo cheio. Falava dos benefícios para o turismo, para o comércio e até mesmo os investimentos em mobilidade que iriam ficar como legado ( cadê né!?ate hoje procuro).

Esse ano, é tanta notícia ruim que até uma patriota e otimista como eu, andava meio cabisbaixa. Por outro lado, as milhares de notícias ruins que proliferam e que, na maioria das vezes, são divulgadas por canais brasileiros, me incomodavam e MUITO. É uma tal de disputa pra ver quem tá mais na m** que pelo amor de Deus. Esses dias eu vi a foto da Hope Solo, goleira da seleção de futebol dos Estados Unidos, cheia de capacete com medo do Zyca vírus dizendo estar preparada para vir às Olimpíadas e, obviamente, fui ler a tal da repercussão negativa e das críticas dos brasileiros. Mas minha gente, vocês são os primeiros a colocarem a imagem do País como algo semelhante a um inferno, não dá pra culpar o gringos né!? Eu via novamente, a postura de dois anos atrás se repetir. Antes da copa era um tal de “esse é o país da copa” ou “não vai ter copa” ou ” que absurdo essa copa” e na hora, loucura geral mesmo com o 7×1. Depois, a gente passou um tempo exaltando os alemães e aí a vida normal e real apareceu e ficou tudo por isso mesmo.

Aí ontem, lendo esses textos super empolgantes e emocionados no facebook, me dei conta de que vivemos um relacionamento abusivo. Fiquei na dúvida se somos os abusados ou os abusadores, mas creio que na maior parte do tempo, somos os abusados. A gente come o pão que o diabo amassou no nosso dia a dia. Tá faltando hospital, tá faltando educação, tá faltando transporte público, tá faltando uma porrada de coisa. E a gente passa anos reclamando. A gente gasta mais energia em publico pra falar mal do País do que pra elogiar. A gente passa muito tempo discutindo em nossas rodas formas de ir para o exterior ou aplaudindo quem teve coragem, mas na hora do “vamo ver”, o povo arrega.

Aí, vem uma festa linda.Vem Gisele Bundchen ( quem pode disputar com ela, não é mesmo!?). Vem pessoas de fora fazendo elogios, vem aquela adrenalina toda, vem uma história de superação ( onde boa parte dos obstáculos fomos nós, mas vamos esquecer isso) e de repente, todo mundo se sente merecedor do ouro e pronto. Os problemas acabaram. Só vejo textos dizendo “embora a gente saiba que tá ruim, vamos curtir”, e aí, o povo vai curtir. Vai ignorar notícias ruins, vai esquecer da política, vai deixar de lado a tentativa de reforma trabalhista que estão fazendo, querendo negociar até as férias e vai ficar por isso mesmo. Daqui a pouco a festa acaba. Daqui a pouco o auê passa e não teremos legado positivo. Nosso desempenho nessa olimpíada está pior do que o de Londres há quatro anos. Isso quer dizer, que ao contrário do que tentam fazer parecer, os investimentos em educação e esporte não estão sendo como a gente sempre diz que deveria ser (rimou, mas não foi proposital, eu juro). As pessoas estão ganhando por mérito, é claro, mas se agarrando a pouquissimas oportunidades que o Estado ainda consegue prover.

Daqui a pouco, as mulheres que continuam sendo praticamente maioria em quase todos os lugares, vão continuar ganhando menos. Vão continuar tendo medo de voltar a pé sozinha para casa a noite. Vão continuar sendo esquecidas ou, recebendo mensagens como a Joanna Maranhão recebeu essa semana. As mulheres vão continuar apanhando e o brasileiro vai continuar sem ver. Daqui a pouco, negro, pobre e favelado vai continuar levando 111 tiros sem ser acusado de um crime sequer. Daqui a pouco, as pessoas vão continuar defendendo o fim das “bolsas esmolas” inclusive, a bolsa atleta.

O espírito olímpico é lindo, se a gente continuasse com ele depois que tudo isso passa seria ótimo e com certeza tudo ia valer a pena. Mas a verdade, é que a gente não continua. A verdade é que a gente segue em frente no meio do caos e a verdade é que a gente agora, quer se espelhar nesses atletas incríveis que nós temos como exemplos de superação, mas eles não são os únicos. Porque o que mais o Brasil produz nessa vida, é gente guerreira que batalha, persiste e ganha, APESAR das diversidades (apesar das olimpíadas, inclusive) e isso gente, não é nenhuma mudança para nós. Será, quando os ouros forem conquistados por conta do treinamento de ponta que eles estão recebendo, tipos os gringos sabem!? Aí, a gente pode comemorar aos berros, mas enquanto ainda nos assustamos e exaltamos essas exceções, é porque estamos longe, muito longe do caminho que deveríamos estar.

Por isso que eu digo que estamos num relacionamento abusivo. Sofremos a maior parte do tempo, não temos dignidade durante boa parte das nossas vidas ( se você é usuário do transporte público por exemplo, sabe bem o que é isso. Se é aposentado então, nem diga), mas, é só um circo aparecer que a gente finge que tá tudo bem, sorri para a câmera, exalta o nosso lado brasileiro ( aquele que vocês adoram criticar com textos de gringos, lembram!?) e tá tudo bem, esquecido, passou, foi um pequeno deslize. Vamos dar mais uma chance, porque né..o que nos resta!? e quando a milésima lua de mel acabar, a gente volta a reclamar no facebook/twitter/mesa de bar. E assim, a gente segue. Amarrados nos braços de um abusador poderoso e convicto, sem a menor esperança de reação!

Mas é isso, Vai Brasil =)

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