Experiências que transformam nossa militância.

Há quatro meses, eu acordava meio desorientada com um telefonema do meu pai no meio da madrugada: “já prenderam o assassino. Foi o Lucas”. Eu lembro de ter perguntado umas três vezes incrédula no telefone: “oi? como assim?”.

Desliguei o celular tremendo. Virei pro meu marido quase sem voz e repeti o que o meu pai havia me dito. Não dormi mais. Naquela noite estava no meu quarto, eu, meu marido e um amigo de longa data. Foi a primeira vez na vida que eu tive medo deles. Era medo tipo pânico mesmo. Eu não estava segura ali.

< <Recorte no tempo> >

Alguns meses antes, uma colega da militância feminista havia feito um post dizendo que todos os homens são estupradores em potencial. Eu lembro de ter comentado que achava aquilo radical e ela respondeu dizendo que por mais amiga que seja do homem, ela sempre vai desconfiar deles. Eu não falei mais nada, mas pensei no meu irmão, no meu marido, nesse amigo que dormia no meu sofá e eles jamais estuprariam uma mulher e concluí baixinho comigo mesma: Esse feminismo não me representa.

<<Volta para os 4 meses atrás>>

Quando todos despertaram pela manhã, eu expliquei o que havia acontecido para o Lapa ( o amigo que dormia no meu sofá). A minha prima havia sido assassinada pelo cunhado ( marido da irmã). Ainda não tínhamos informações necessárias sobre o motivo, mas a questão é que o cunhado sempre de fala mansa, gentil, cristão (aff!), pai, rico, e educado estava na família a pelo menos uns 20 anos. Eu não conseguia praticamente pensar na minha existência, sem lembrar dele. Com certeza se encaixava no rol de “não é todo homem estuprador/agressor em potencial”, tanto é que além não conseguir entender que minha prima mais amada do Universo tinha sido assassinada, eu não conseguia entender que havia sido por aquele homem. Eu passei o resto da madrugada lembrando do post da colega feminista no facebook.

Eu lembro que naquela manhã, eu passei quase toda ela discutindo e falando de feminismo com o meu amigo ( que provavelmente nunca havia sido tão inundado de tanta discussão a respeito). Naquela manhã, eu tive uma DR particular comigo e com a minha militância. Eu pensava com toda a culpa do mundo: Como é que um dia eu chamei qualquer mulher de louca porque ela simplesmente tem medo dos homens?. É pra ter mesmo. Eu pensava: Como é que em alguns momentos da minha vida eu flexibilizei os meus ideais porque eu “conhecia o macho e sabia que ele não seria capaz”?. Como é que a gente conhece alguém tão bem a ponto de colocar a mão no fogo por ele?. Como é que eu em algum momento da minha vida já havia deixado de socorrer uma mulher por que o macho era meu amigo? (não lembro de ter feito isso, mas tem coisas que a gente nem repara, não é mesmo!?).

Naquela manhã eu fiquei tentando entender os motivos (como se pudesse haver algum) e ainda achava que tudo não se passava de um pesadelo. Era real. Muito real. Naquela manhã eu me dei conta do quanto eu ainda tinha que avançar na minha conversa com o feminismo.

<< Recorte no tempo >>

Essa semana, discutia na mesa de um bar sobre a influência que nossas experiências pessoais tem em nossa militância. Eu descobri há quatro meses que é total, mas que ao mesmo tempo, devemos tomar cuidado para não restringir nossa luta apenas aquilo que nos diz respeito.O grupo que participo aqui em Blumenau é muito diverso. LGBT, feminista e negros. Eu me encaixo apenas no segundo coletivo, mas não por isso devo esquecer das pautas dos outros. Quando a gente luta por uma igualdade e esquece a do outro, a gente não luta por nenhuma. Da próxima vez que alguma mulher me relatar abuso, assédio, agressão ou o que quer que seja, aprendi que devo escutá-la. O exercício da escuta é o MAIS PRECIOSO nesse caminho. Se colocar no lugar do outro. Acolher quem precisa de nós. Da empatia ( que é uma palavra da moda, mas que faz bem colocar em prática não só quando interessa). Que a gente possa aprender com as nossas vivências, mas que possamos refletir com as vivências alheias. Que a gente possa evitar que outras pessoas tenham as mesmas experiências negativas que as nossas. Que a gente possa ser cada vez melhor. Eu com certeza ainda tenho um longo caminho de militância pela frente, mas sigo feliz por conseguir aprender com os meus erros.

Como bem disse uma amiga foda hoje: O arco íris é para todos.

 

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