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O que acontece na vida adulta, com os apelidos da agenda telefônica?

Estou eu nesse domingo frio em Blumenau curtindo a minha solidão. A gente está sempre tão rodeado que às vezes esquecemos como é gostoso se afundar no sofá, pegar uma comida gostosa, ler um bom livro e deixar o celular com toda a sua urgência apitando loucamente, de lado!

Por motivos que eu nunca consiguirei entender, minha mente funciona de forma alucinada. Ela tá aqui comigo curtindo a solidão, daqui a pouco pensando sobre a fome na África e logo após escrevendo um texto mental para esse humilde blog. Ao invés de lutar contra isso, resolvi seguir o conselho do Universo, largar o livro e fazer uma das coisas que mais gosto nessa vida: Escrever.
Sempre falam “nossa Dani, você deveria ter sido jornalista” ou “nossa Dani, você deveria escrever um livro/blog/coluna” eu respondo dizendo que não tenho talento para formalismos. Eu não sei ser formal e o formalismo me entedia. Meus textos, mesmo os jurídicos eram cheio de informalidades e por tal motivo, eram reiteradamente corrigidos por chefes formais. Quando eu não tinha mais chefes formais, eles eram corrigidos sutilmente pelo meu sócio formal que escrevia emails com “prezado fulano” até quando o fulano era amigo dele rsrs!
Eu lembro que levei um choque quando eu vi o meu nome na agenda telefônica do Bruno quando ainda namorávamos. Estava escrito assim: Danielle Menezes. Bem frio mesmo. E eu disse: mas cadê o Baby? o amor?fofinha? pelo menos DANI. É pra gente ser brega, cara. E ele disse que ele mantem um padrão na agenda telefônica e só trabalha com nome e sobrenome. Engoli seco a revolta e o transformei em “BRUNO SANTOS” no meu celular..assim mesmo, bem grosseira.
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Quanto mais eu fui chegando próximo da minha crise existencial com o mundo jurídico, mais eu ia percebendo que boa parte da minha agonia era o formalismo que me irritava. Vossa Excelência, Doutor, data venia, prezados, sério? Terninho, gravata, barba feita, sério? É o tipo de coisa que me entedia, mas que eu havia aprendido a conviver porque afinal de contas, eu era advogada e sabia o que ia me esperar desde o princípio. Mas aí, eu no auge da minha rebeldia pensei ” f** que o mundo jurídico foi sempre assim, ele não precisa continuar assim se a gente não quiser, não é mesmo?”. Educação é diferente de formalismo, Respeito é diferente de formalismo. Eu não preciso chamar o juiz de Vossa Excelência para evitar que petições sem correção escrito “aquele juiz é cuzão” sejam protocoladas indevidamente. E aí, eu passei a assumir o meu lado rebelde esperando o dia de ser “punida” por isso. Não aconteceu. Talvez as pessoas dêem mais ênfase a teria do formalismo do que exista de verdade. O fato é que o judiciário está tão abarrotado, mas tão abarrotado, que poucas pessoas tem tempo para prestar atenção que eu fui fazer audiência de tênis, jeans escuro e tatuagens a mostra. Saí de lá com meu cliente feliz, então, se ele reparou nisso tudo quando chegou, já havia esquecido da minha aparência e o juiz, ah, tadinho, mal olhou para o lado que dirá para o meu calçado. Mas não é só isso que deveria importar?? Pessoas civilizadas resolvendo um problema e profissionais preocupados em fazer um bom trabalho? Eu, na minha mente rebelde, acredito que sim.
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Aos poucos, meu sócio formal que fica incrivelmente elegante de terno passou a ser prático também. Ele deixava a roupa de advogado dele guardada no escritório caso surgisse alguma audiência ou cliente de última hora, mas começou a se locomover de calça jeans, camiseta e tênis. Muito mais prático e fresquinho. Era bem menos bonito é claro, mas tem hora que a gente tá mais preocupado em não suar como um porco do que ficar elegante de gravata no transporte público, não é!? E eu, fui me tornando mais e mais avessa a burocracias e formalidades. Eu não acho que elas precisem existir para as coisas andarem corretamente. Eu acho que a gente precisa ter noção de respeito, responsabilidade, pontualidade e até hierarquia quando ela existe, mas a gente não precisa ser tão formal. Não precisamos ser tão formais em rodas de amigos, ficar falando de trabalho, parecer sérios e responsáveis o tempo todo.  Até agora os melhores grupos de amigos que formei foram aqueles em que as pessoas se permitiram serem “ridículas”. Fazer sons constrangedores, cantar desafinada, dançar desgovernadamente, contar histórias nada engrandecedoras. Quando as pessoas relaxam e não tentam se comportar como se estivessem numa entrevista de emprego o tempo todo a gente enxerga melhor quem são elas. Os pontos de vista, as ideias, até o caráter é melhor avaliado. Sem máscaras, por favor!
E talvez, por essa minha aversão ao formal ( e não aversão pelas regras, são coisas bem diferentes) é que meu marido insista em rir das minhas conversas com pessoas que acabo de conhecer. Ou ainda das polêmicas que lanço em grupos que acabei de chegar. Ele acha divertido, por que já se acostumou. Ele acha divertido porque fica só analisando a expressão facial dos outros. Eu acho cansativo. Eu acho cansativo ter que ficar me podando o tempo todo ou por algum espaço de tempo até analisar se já tenho intimidade ou não pra falar o que eu falaria normalmente e que nem iria ofender ninguém. Eu posso estar num ambiente descontraído falando de coisas sérias, porque a minha essência não muda com o ambiente, e espero que a de vocês também não. Se, por acaso, alguem precisasse da minha ajuda como advogada e eu estivesse vestida de festa junina por exemplo, o meu conhecimento jurídico continuaria sendo o mesmo e é isso que importa!
Quanto mais eu paro pra pensar o que me levou a ser quem eu sou hoje, mais percebo que numa mistura de histórias eu me tornei uma pessoa com qualidades,objetivos e defeitos fora dos padrões tentando se encaixar em lugares que não foram feitos para mim. E, num determinado momento cansei de forçar a barra e resolvi viver a vida assim livre, leve, solta ,mas com regras, horários, responsabilidades e objetivos impostas po mim e não por alguém num determinado momento do Universo que eu nem sei qual é.
E é isso, voltarei a minha solidão..bom domingo para voces!
PS: Devo confessar que fui derrotada na batalha da agenda telefônica e, com medo dos possíveis assaltantes que, possivelmente poderão levar o meu celular embora a qualquer momento, eu também passei a trabalhar com nomes e sobrenomes para eles não saberem quem é meu irmão ( embora não seja dificil de notar), marido, pai, mãe e talz. Formalismo = neura.
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O mundo de quem nada faz e muito critica

Certa vez, conheci um garoto que depois veio a ser muito meu amigo. Meu primeiro contato com ele foi chocante, queria sair correndo e nunca mais falar lhe dirigir a palavra rsrs. Ele dizia que odiava os humanos e queria morar numa ilha deserta ou tacar uma bomba e acabar com o mundo inteiro, algo do tipo.  Estava sempre repetindo como os humanos eram ruins, perversos, hipócritas.

Esse não é o meu único amigo pessimista, tenho alguns outros. Eles não acreditam muito na bondade humana, não fazem nada pra ninguém, vivem excluídos no mundo deles. Do alto de todo o meu otimismo, essas amizades sempre foram difíceis demais para mim, porém, ultimamente, estou quase tendo que concordar com essa filosofia.

A gente sabe que há pessoas que não devemos confiar. Todo mundo aqui já deve ter sido passado pra trás, sofrido com uma amizade falsa, traído por um namorado ou coisa assim do tipo. Mas aí pensamos “poxa, é apenas um fruto podre no meio do jardim, sigamos em frente”, eu não vou deixar de me relacionar com as pessoas apenas porque algumas foram sacanas.

E você segue em frente. A gente acaba desenvolvendo algumas técnicas de auto preservação, nem todo mundo mais chamamos de amigos, nem todo mundo mais a gente sai correndo de madrugada pra ajudar, embora a gente não se envolva profundamente com mais ninguém, julgamos todas boas pessoas. Aí, vem o facebook e meio que te faz acabar com boa parte do otimismo. Muitas das pessoas boas, destilam preconceito nas redes sociais ou piadinhas tolas. Em época de ânimos esquentados por conta do momento político então, a gente olha de tudo. Veja bem, já me declarei trocentas vezes ao mundo como de esquerda e com viés socialista. Eu não quero dizer que basta alguém ser de direita e capitalista que ela  já é o demônio para mim, não é nada disso. Mas, independente da sua ideologia política eu imagino que todos nós devêssemos desejar a mesma coisa: um país decente para T-O-D-O-S. Por todos, eu quero incluir, negros, pobres, LGBT, nordestinos, moradores de rua, usuários de droga, a tal da escória. Em “todos” não está incluido apenas a minha família. Eu já disse também, não me interessa em ter casa com grandes muros, carros do ano, e roupas de grife, se ao atravessar a rua eu vou ver uma criança cutucando o lixo para sobreviver. Quando eu falo que tenho um viés socialista, eu não quero dizer que você não possa usar o seu iphone, eu quero que T-O-D-O-S possam ter um iphone, inclusive a criancinha chinesa que o produz. A gente defende a igualdade, uma renda justa e honesta para todos. A supremacia do interesse público no lugar do particular, que a saúde, a educação e a segurança pública seja efetiva e que eu não precise pagar imposto + plano de saúde, escola e o guarda da rua para me sentir superior. É isso que a gente quer, é para isso que a gente trabalha.

É atrás dessa igualdade, desse mundo justo, dessa ideologia que a gente vive. Que a gente se voluntaria, que a gente “perde” finais de semana, fazendo ações em creche, em asilos, nas ruas. É por conta dessa ideologia, que abrimos mãos de nossos luxos. Não dá pra ser feliz com luxo sabendo que tem gente passando fome, não dá. Se você consegue, você é uma pessoa ruim, desculpe! Não dá pra viver nesse mundo pensando ” mas é fruto do meu trabalho, ninguém tem nada a ver com isso”. É fruto do seu trabalho o consumo de itens produzidos com mão de obra escrava, durma com esse barulho.

Agora, pior do que isso é quem não faz nada e ainda quer criticar. O problema dessa democracia representativa é que tem gente achando que basta votar. Basta votar e jogar lixo na rua. Basta votar e não registrar seus empregados. Basta votar e falsificar carteirinha de estudante para ter meia entrada. Tem dinheiro pra ir pra Europa, mas não tem dinheiro pra pegar um cinema, vê se pode. Aí, essas pessoas sentam nas suas cadeiras do alto de toda a sua pompa “porque trabalham” e acham que podem apontar seus dedos para os outros. Agora, fazer algo ninguem quer né? Ninguem quer sair do trabalho e fazer uma boa ação. Ninguém quer, perder um sábado, ninguém quer algo que dê trabalho. Todo mundo só quer saber de criticar.

Aí, eu vejo essas coisas e lembro daquele meu amigo lá do começo do texto. Tem hora que dá vontade mesmo de explodir o mundo e começar do zero, porque falhamos muito na missão. Como que a gente quer um mundo melhor se só pensamos em nós e em mais ninguém? Tem horas que o meu otimismo se esvai e a unica vontade que dá é de fugir para as montanhas enquanto é tempo.

 

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Para não falar de crise: Consumo sustentável

Faz bem uns dois anos que eu ouço falar ininterruptamente sobre crise. Quando eu fui montar meu escritório, o conselho é para que não fizesse, porque o país estava em crise. Quando eu quis mudar para um aluguel mais caro, o conselho é que eu não fizesse porque o país estava em crise. Quando eu quis mudar de emprego, sabem qual era o conselho? Poisé.

Eu sei que a situação não está facil. Sei que ano passado e ainda neste ano, milhares de demissões foram feitas e sei que o supermercado está caro, mas a verdade é que a crise (quase) não me atingiu.

Ontem, enquanto jantávamos a gente estava conversando em como 2015 e 2016 têm sido anos bons para nós. O Bruno está no mesmo emprego, logo a renda é a mesma. Eu, que larguei um emprego e comecei um negócio novo, também estou indo bem, mesmo que a minha renda tenha diminuído um pouco.

A verdade, é que de uns dois anos pra cá a gente iniciou um movimento em casa de consumo sustentável e com isso nossos gastos caíram drasticamente. A gente se desfez de um carro que não precisávamos, diminuímos o consumo por impulso, diminuímos as compras parceladas, mudamos para uma cidade mais barata, passamos a confraternizar mais com os amigos em casa do que nos bares carísssimos e, neste ano, o que acabou cortando mais da metade de nossos gastos com o mercado, é o fato de termos diminuído drasticamente o consumo de industrializados. A gente não come mais carne durante a semana, compramos apenas legumes, frutas e verduras, temperos a granel e sem refrigerante. Passamos a consumir roupas de pequenas marcas aqui de Blumenau, compro mais no comércio de rua do que no shopping e aumentamos as refeições em casa.

Todos esses ajustes foram feitos naturalmente. A cada mês a gente encontrava supérfluos na nossa vida que atrapalhava o orçamento, a saúde, a dieta, as ideologias e por aí ia. A gente sabe exatamente o quê gostamos de consumir e não queremos abrir mão, viagens, por exemplo é um deles.  A gente começou a perceber que às vezes gastava o dinheiro de uma viagem legal sem nem perceber, só consumindo de forma enlouquecida, desenfreada, seguindo a cartilha que ensinaram para a gente: consuma muito e seja feliz. Hoje a gente sabe que a verdade é o contrário: consuma menos e seja feliz.

Vemos ao nosso redor muita gente reclamando da crise. Muito porque os gastos aumentaram e a renda não. Outros porque a renda diminuiu e os gastos foram mantidos, mas ninguém quer rever a forma de consumo. Enxergo esse momento como uma ótima oportunidade para promover a mudança de alguns conceitos na nossa vida. Quem não muda pelo amor, muda pela dor. Ainda bem que escolhemos mudar pelo amor lá em casa, e nessa época difícil a gente tem ficado tranquilo.

Esse texto, não é para defender governo dizendo que não há crise, mas sim, para dizer que, com ou sem crise, o consumo sustentável sempre será a chave para uma boa vida, tranquila e com o que importa e hoje, mais do que nunca, a gente quer levantar essa bandeira para o mundo.

 

 

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Economia solidária: Do Maranhão para o mundo!

Vocês estão prestando atenção na revolução que anda acontecendo na minha vida? Pois prestem e anotem aí, é daqui para o mundo rsrs.

A gente quando se abre para o Universo e deixa as oportunidades entrarem é capaz de promover coisas incríveis na vida, né!? Larguei o Direito por que estava insatisfeita com a qualidade da minha vida, com a qualidade do resultado que o meu trabalho tinha na vida dos outros, porque ele trazia negatividade aos meus dias e muitos outros motivos. Eu talvez nunca vá saber explicar para vocês o que se passava aqui dentro de mim – deve ser algo que apenas eu e o Bruno (por acompanhar bem, bem de perto) consiga compreender.

O último post foi para contar pra vocês que eu estava enveredando pelo ramo da saboaria artesanal. Pois bem, saí de férias e fui visitar a minha família paterna em Codó, no Maranhão, quase divisa com o Piauí. Fazia parte dos meus planos comprar óleo de babaçu para utilizar como matéria prima nos meus sabonetes. Fazia parte dos meus planos fazer um mini documentário mostrando para vocês como é a vida naquela região. Fazia parte dos meus planos mostrar ao meu professor e ao mundo, que ninguém parou de trabalhar porque ganha bolsa família. Não fazia parte dos meus planos ter esquecido a minha máquina digital..rsrs (mas a gente filmou com o celular mesmo assim).

Chegando lá, meu avô me levou na associação das mulheres quebradeiras de coco para que eu conhecesse um pouco a história delas e como acontecia toda a produção. Comprei 6 litros de óleo e anunciei em alguns grupos que eu estava trazendo, caso alguém se interessasse. As pessoas enlouqueceram. Resultado 1: larguei praticamente TODAS AS MINHAS ROUPAS em São Paulo e trouxe os meus 23kg de bagagem CHEIA DE OLEO DE BABAÇU. Resultado 2: Papai já mandou quase mais 60 litros de óleo pra mim, desde que eu cheguei em Blumenau no dia 19 de abril. Vou dominar o mundo, ou não vou?

Agora vou explicar melhor toda a situação, sentem aí que lá vem história.

Eu saí do Maranhão em 98 mas o Maranhão nunca saiu de mim. Eu já havia bolado na minha cabeça trocentos mil planos desde voltar para São Luís a fazer algo que impulsionasse o meu estado, tão judiado pela aquela família que não devemos nomear. Com exceção de levar os amiguinhos para fazer turismo sempre que a gente tem oportunidade, quase todos os meus outros projetos falharam, porque eu não fazia ideia de por onde começar. E não tinha ideia até o dia 07 de abril, quando fui visitar a associação em Codó e passei a pesquisar tudo a respeito do babaçu, que vou falar aqui de forma bem suscinta.

A maior parte das palmeiras de babaçu está no Maranhão, mas estados como Piauí, Tocantins e Pará, também são beneficiados. O babaçu é responsável pela renda de quase 300 mil mulheres, que são conhecidas pelo nome de quebradeiras e que enfrentaram e continuam enfrentando uma luta diária para conseguirem seguir com o seu trabalho. Muitas palmeiras estão dentro de fazendas particulares, que passaram a impedir a entrada das trabalhadoras para pegar o coco. Mais criminoso ainda, é a atitude de tacar fogo nos babaçuais apenas para prejudicar as mulheres ou para transformar em pasto (um dos motivos pelo qual cortei drasticamente a carne na minha vida, mas isso é papo pra outro texto). Em 1997 foi aprovado no município de Lago do Junco, no Maranhão a lei do babaçu livre, que basicamente tenta regulamentar a atividade das quebradeiras, impondo restrições a derrubada das palmeiras e evita que os fazendeiros impeçam a entrada das mulheres em suas propriedades. No entanto, tal lei ainda é municipal e beneficia cerca de 10 mil mulheres no total e estamos nos cafundós do Nordeste, sabem o que isso significa né? Lei é luxo!

Aos poucos, as quebradeiras foram se juntando e formando associações para que pudessem ser mais fortes ao enfrentar tantas batalhas. Em 1995, foi criado o movimento interestadual das quebradeiras de coco babaçu (MIQCB), que luta pelo direito a terra e a palmeira para que possam trabalhar e manter a natureza estável, além de pleitearem o reconhecimento das quebradeiras de coco como uma categoria profissional.

Do MIQCB foram surgindo pequenas associações, cada uma em sua região. A que eu visitei foi a de Codó, comandada pela dona Áurea e bem cuidada pela dona Ló. Mas há várias outras espalhadas por aí.

Da palmeira quase tudo se aproveita. Da palha, elas fazem artesanato e cobertura de suas casas, da casca fazem carvão, das amêndoas, azeite, óleo, sabão, sabonete, pasta de brilho e a farinha, conhecida como mesocarpo e, das sobras é feito o que chamam de torta, que serve para alimentação animal. É um daqueles tesouros brasileiros que ninguém valoriza, que ninguem aproveita. Fui pesquisar e descobri que a quase 10 anos, o Brasil exporta paraos Estados Unidos e Europa, e o salões de  Milão desde 2013, utilizam escova de babaçu em suas clientes. Enquanto isso, nós, vamos ficando para trás. Judiando de nossas guerreiras, condenando-as ao esquecimento, utilizando em nossa casa, produtos caros, de péssima qualidade e cheios de química. As pessoas falam “antigamente, o povo comia ovo e bacon no café da manhã e ninguem tinha nada”, é claro, eles não se envenenavam constantemente como a gente costuma fazer.

Eu não preciso dizer que fiquei apaixonada por aquilo tudo. É um trabalho de economia colaborativa. É um trabalho que fortalece as mulheres. Elas, são feministas e nem conhecem esse termo. Muitas, iniciaram como quebradeiras para não depender do sustento do marido. Outras, cansadas de serem abusadas, encontraram no trabalho de quebradeira uma forma de ser independente, com uma renda de R$100,00 por mês, que é o suficiente para não deixar sua família morrer de fome, em um dos estados mais pobres desse País. São mulheres que poderiam ter baixado a cabeça e desistido, mas não. Elas reagiram, lutaram, batalharam, tiveram imensas conquistas, que eu, com meu diploma de advogada nunca terei nessa vida – eu não sei o que é passar fome, eu não sei o que ter necessidade. Eu sei o que é reclamar de barriga cheia, isso eu sei.

No final das contas, eu iniciei um trabalho aqui na região Sudeste e sul de formiguinha. Um trabalho que movimenta a renda das mulheres do meu amado Maranhão. Um trabalho que de forma tímida, melhora a divisão de renda desse país. Toda pessoa que compra um óleo comigo e não compra o que está no mercado, coloca um prato de comida na mesa de alguém lá em Codó. Ela não contribui paara que o CEO de uma grande indústria compre uma lancha nova, ou vá viajar de primeira classe, NÃO, ela dá a esperança que de repente a neta da Dona Ló, possa ter estudo e não ser analfabeta como boa parte das quebradeiras, que ela aprenda a falar inglês, que ela não passe necessidade, que ela possa ter um diploma. Essas coisas que a gente sonha pra gente que está por aqui mas que eu não sei por qual motivo entendemos que não pode ser um direito delas. Sabe aquela história que pobre tem que andar de ônibus enquanto rico é que anda de avião? Então, poisé..é isso.

E, se não fosse a satisfação imensa que invade o meu peito ao estar fazendo isso, os presentes que eu tenho ganhado é algo incrível. Praticamente, cada pessoa que compra algo comigo, vira uma amiga aqui no facebook. Vira e mexe o Bruno pergunta “que tanto você faz nesse facebook?” as respostas variam “tô papeando aqui com uma menina que conheci lá na comunidade”, “tô pegando uma receita aqui com uma menina que comprou óleo” ou ” tô combinando aqui de tomar um cerveja que a fulana de tal”. Sabe aquela energia boa? Elas querem o óleo pra passar no cabelo, pra usar na cozinha, pra conhecer, mas se interessam pela história toda, abraçam o meu sonho, divulgam em suas redes sociais, assim, por pura satisfação. Antigamente, 98% dos meus clientes só reclamava até mesmo quando a gente ganhava. Agora não. Eu vendo, sigo um sonho, ganho um dinheiro, faço amiguinhas, meu coração fica feliz. É um ciclo desses que a gente só pode agradecer né!? E eu vou repetir de NOVO o que eu sempre digo: Se você quer mudar sua vida, apenas COMECE.

É isso..Fiquem com uma musiquinha do babaçu 😉 Apresentação das quebradeiras de coco babaçu!

Ei! Não derruba esta palmeira
Ei! Não devora os palmerais.
Tu já sabes que não pode derrubar,
precisamos preservar as riquezas naturais.

O coco é para nós grande riqueza,
é obra da natureza, ninguém vai dizer que não.
Porque da palha só se faz casa pra morar
Já é meio de ajudar a maior população.

Se faz óleo pra temperar a comida,
é um dos meios de vida pros fracos de condição
Reconhecemos o valor que o coco tem,
a casca serve tambem pra fazer o carvão.

Com óleo de coco, as mulheres caprichosas
fazem comidas gostosas de uma boa estimação
Merece tanto seu valor classificado que,
com óleo apurado, se faz o melhor sabão.

Palha de coco serve pra fazer chapéu,
da madeira faz papel ainda aduba o nosso chão
Talo de coco também é aproveitado,
faz quibane, faz cercado pra poder plantar feijão

A massa serve pra alimentar o povo.
Tá pouco o valor do coco, precisa dar atenção
Para os pobres, este coco é meio da vida
Pisa no coco, Margarida! E bota leite no capão

Mulher parada, deixa de ser tão medrosa!
Seja um pouco mais corajosa, segura na minha mão
Lutemos juntas com coragem e com amor
Pra o governo dar valor a esta nossa profissão

Santa Maria é a nossa companheira
Grande força verdadeira que proteje esta nação
Que fortalece a nossa luta pouco a pouco
E a mulher que quebra o coco pede a sua proteção

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A saga da Dani: Da profissão tradicional para a vida de bicho grilo.

A última vez que passei por aqui foi para avisar aos amiguinhos que eu estava definitivamente jogando a toalha do mundo jurídico.

Ao contrário da forma como ajo normalmente, eu não disse qual caminho eu seguiria, primeiro porque ainda nem sabia e, segundo, porque achei melhor assentar a ideia na minha cabeça.

Três semanas, alguns cursos e muitas conversas depois, me sinto mais confiante para jogar definitivamente no Universo os meus próximos passinhos, principalmente porque vocês amiguinhos, serão muito importantes nessa minha saída a esquerda (só pela polêmica rsrs).

Como a maioria me sugeriu não serei nem blogueira e nem jornalista. Deus me live de ter que vender minha alma para jornais tendenciosos e continuar no meio de tanta notícia ruim. Eu tinha a certeza de que não queria trabalhar com burocracia NENHUMA.

Durante toda a minha caminhada de vida, que ainda é pequena, eu sei, sempre fui ligada nos movimentos sociais. Sempre defendi minorias. Sempre busquei a justiça social. E sempre fui minimamente antenada com os assuntos ambientais, ou pensava que era. Eu me preocupava em apagar as lâmpadas ao sair de um cômodo, ou em tomar um banho rápido para evitar desperdício de água e achava que estava abafando.

Quando eu voltei a pesquisar mais a fundo sobre diversos assuntos, me choquei no quanto somos alienados e em quanto ainda precisamos aprender, para de fato, conseguirmos viver num mundo sustentável.

Numa época em que temos tudo a mão facilitado pelo avanço da tecnologia, fazer pequenas concessões ambientais em nossa rotina, não é uma das tarefas mais fáceis. Você vai ouvir todas as justificativas possíveis e, principalmente a mais padrão : eu não tenho tempo, minha vida é muito corrida.

Eu diria que somos a geração do desperdício. Não sei como era antigamente, mas acho que se fosse pior do que hoje, com certeza o mundo não teria resistido a tanto tempo. Consegui fazer várias mudanças na rotina lá de casa. Quem conversou com a gente nos últimos tempos, sabe que até convencer o marido a não comer carne durante a semana eu consegui, e mais algumas vitórias.

A minha maior descoberta e o maior desafio, com certeza foi o meu banheiro. Vocês já pararam para avaliar o quanto de plástico tem em nossas pias? São inúmeros produtos de beleza, creme dental, shampoo, condicionador, perfume, cremes, sabonetes. Todos em embalagens plásticas sem nenhum programa de reciclagem, todos lotados de parabenos, produtos sintéticos, derivados de petróleo, entre outros, que serve para poluir o lençol freático quando tudo aquilo escorre pelo ralo,  matar os peixes sufocados ( no caso de sabonetes esfoliantes produzidos com aquelas bolhinhas de micro plastico) e, o pior: PIORAR NOSSA PELE, NOSSO CABELO, NOSSOS DENTES.Mas eu não compro tudo aquilo pra ficar gatinha? Poisé, senta para chorar aqui comigo também.

Ou seja, uma atitude minha que parecia ser inofensiva e que eu repito pelo menos uma vez por dia ( e eu espero que vocês também), causava um mal tremedo ao mundo, e eu não fazia ideia de nada disso porque essas informações não são propagadas como deveriam, simplesmente não interessa a grande indústria que a gente fique sabendo disso ( imaginem eu jornalista..rsrs).

Devo dizer que hoje eu julgo as pessoas pela quantidade de mudanças sustentáveis que ela está disposta a fazer na vida dela. Um papo espiritualizado, de elevação de alma, de desejo de um mundo menos violento, deve vir com pequenas ações do nosso dia a dia, caso contrário, são meras palavras que se perdem no vento assim que proferidas.

Mudar o mundo começando pelo nosso quintal dá trabalho, porque não podemos terceirizar a culpa. A gente precisa sair da nossa zona de conforto e fazer pequenas mudanças que no início parecerão grandiosas, mas após a fase de adaptação, será como se tivesse sido sempre assim.

Você pode diminuir o uso do seu carro em pequenas distâncias. Você pode oferecer mais caronas. Pode levar suas próprias sacolas quando for ao mercado, pode comprar seus temperos a granel levando seus próprios potinhos. Pode fazer uma composteira na sua casa.Pode evitar o uso de canudos plásticos. Pode compartilhar mais suas coisas, ao invés de comprar produtos que usará apenas algumas vezes. Pode carregar sua garrafinha de água na bolsa. Pode verificar a procedência dos itens que você consome. Pode diminuir o consumo de carne. Pode dar preferência a pequenos produtores,agricultores, artesãos, etc. Pode preferir produtos naturais, sem base animal, sem poluentos químicos. Pode dar bom dia ao vizinho.

Tenho certeza que você pode fazer tudo listado aí em cima. Não é muito difícil, nem de outro mundo e causa um impacto tremendo. A consciência ambiental é pensar no coletivo. É pensar nos seus herdeiros. É querer que todos, sem exceção, tenham acesso a uma vida de qualidade. O resto amigos, é consequência.

Não vale querer um mundo melhor só para você. Ah, quero um mundo menos violento para que eu possa comprar coisas caros e não ser assaltado. Sinto lhe informar, que se você não quiser mudar algumas coisas na vida “não vai estar dando certo, Senhor”.

Enfim, tudo isso para dizer que eu resolvi assumir meu lado mais bicho grilo possível. Continuar a luta de uma outra forma, num trabalho de formiguinha de conscientização ambiental e consumo sustentável. Os meus primeiros produtos saíram do forno recentemente e estão sendo testados ainda. Começaremos com a produção de sabonetes e shampoo em barra, totalmente naturais, sem nenhuma base animal e com a menor produção de lixo. Nada de plástico que demora 500 anos para se decompor nas embalagens. Nada de sabonete com Ph altíssimo que mais resseca a sua pele do que ajuda, para que depois você precise passar mais uma soma de outros produtos que a indústria te vende. Tudo feito artesanalmente, com cuidade e carinho, pensando em mim e pensando em vocês.

E eu espero que vocês sejam os nosso primeiros e fiés consumidores. Que agora seja apenas o início de uma linda caminhada  =)

 

 

 

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Do dia em que eu desisti de ser advogada.

Desde quando me entendo por gente eu sou advogada. Desde criança essa era minha profissão.

Cresci, algumas dúvidas vieram, mas no final das contas passei a preencher o campo de profissão nos formulários por aí como advogada, sempre com orgulho.

Eu não fiz Direito para fazer concurso público. Eu não queria ser juíza, defensora pública, promotora ou qualquer outra coisa, eu queria ser advogada. E queria ter o meu próprio escritório. Eu achava que o sistema era ruim. Mas achava mais ainda que o sistema era ruim por que os profissionais não se esforçavam. Eu não. Eu ia me esforçar pelos meus clientes que eu escolhi que fossem pessoa física. A maioria dos meus clientes eram humildes – os melhores pagadores, diga-se de passagem. Quando envolvia empresa ou coisa do tipo, meu sócio fazia. Eu podia me dar ao luxo de escolher, era felicidade pura.

Eu montei meu escritório num prédio bonito, com um sócio maravilhoso. A gente decorou e ficou tudo muito lindo. Eu tinha vencido na vida. Era dona, fazia o que eu gostava e tinha um bom rendimento. Enquanto todo mundo falava do quanto não estava dando pra ganhar dinheiro na advocacia, eu tava tranquila, parecia estar favorável para a gente.
Mas aí uma questão surgiu. Infelizmente eu tenho um problema: dinheiro não é tudo pra mim. E ser bem sucedida profissionalmente também não é tudo pra mim. Eu fui tonta e entrei nessa por ideologia. Quando o meu cliente entra no meu escritório e me conta o problema dele, eu faço aquela ligação mental com a lei e tomo as dores. Como assim descumpriram algo tão básico? Inadmissível. E aí você parte pro judiciário e começa a perceber que tem que brigar mais do que pensava para que a lei simplesmente seja cumprida. Você não tá querendo ser vanguardista, mudar a constituição federal nem nada. Você só quer que a p** do código civil, do consumidor, do trabalhista, do tributário, seja cumprido. E você não consegue. E não é por incompetência, mas é por que esse mundo anda muito louco mesmo. Há uma inversão de valores. Vítima virou vilão. Esse povo todo quer ficar ingressando com ação agora? Vamos diminuir as condenações deles, ao invés de dar paulada nos grandes congolemerados que fazem bunda lelê pra justiça. E por aí vai. É uma história pior do que a outra. Se você for advogado, sabe do que eu estou falando. Se você não é, mas acessa o UOL semanalmente, também sabe.
O judiciário que deveria ser o órgão mais moral de todos se tornou o pior. Se tornou a podridão da divisão dos poderes de Montesquieu. Onera todos nós para que possamos sustentar seus luxos. Seus inúmeros benefícios. Tem desembargador recebendo até adicional de insalubridade por passar o dia no escritório – Sim, pode acreditar. Tem desembargador outro dia aí que ganhou R$600.000,00 no mês, se o teto é salário do presidente do STF, alguém me explica como isso acontece? Infelizmente eu sei e não gosto de acreditar.
Para uma pessoa como eu, o judiciário é pesado. O sonho é esmagado. Os problemas dos clientes são levados para casa, é terrível. Não adiantava o escritório bonito, o sócio maravilhoso, a renda legal, se o fruto do meu trabalho estava sendo podre pra mim. Eu poderia ter me tornado uma dessas pessoas que se contenta. Entende que a vida é assim mesmo, engole as ideologias e parte pra frente. Eu não consegui. E aí eu matutei por muito tempo. Pesei tudo que havia pra pesar e no final, eu resolvi desistir.
O peso da palavra “desistir” é muito grande. Para alguns (para a maioria né) é como se você tivesse fracassado, mas para mim não. Deu certo, deu muito certo. Fiz as coisas como eu achei que deveriam ser feitas, segui meus princípios e fui em frente. Eu prefiro desistir de uma profissão, do que desistir da minha vida, de mim mesma. Sou a primeira pessoa que preciso respeitar quando traço os meus planos de vida. A gente se acostuma a viver para os outros né!? Eu não quero.
Há beleza na mudança e no recomeço e fazer isso é para os fortes. Dá trabalho e pode até doer, mas não irá doer mais do que as frustrações que eu estava acumulando sendo advogada. Então, não irei carregar o fardo de derrota comigo, mas sim da reinvenção, da criatividade e, principalmente, da coragem.
Hoje eu desisti de ser advogada, tô ansiosa, mas tô feliz e é só isso que importa.
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Geração Y, com muito orgulho sim senhor!

Quase todo dia eu leio algum texto a respeito da geração Y. São vários e eles pipocam na minha timeline na velocidade da luz. Os títulos são vários, a temática é praticamente a mesma: a geração que virou escrava de si mesmo. Seja do anseio pela liberdade, seja do anseio pelas conquistas profissionais, somos acusados sempre da mesma coisa: irresponsáveis, inconsequentes e mimados.

Eu, como geração Y, não me sinto representada por quase nenhum desses textos. Vejo o mundo de uma forma bastante diferente. Talvez, a minha experiência possa ser distinta dos outros, mas eu ainda acho que não. A verdade é que a geração Y é que é diferente do que o mundo estava acostumado e como tudo que é diferente nessa vida, enfrenta grandes resistências.

Tenho em casa dois modelos: mamãe, é a tal representante da geração dos pais (nesses textos que vejo por aí). Funcionária pública desde sempre, a estabilidade é vida pra ela mesmo que o potencial dela esteja bem além da função que exerce. Papai, é o empreendedor. Teve alguns empregos formais aqui e ali, mas só deslanchou mesmo quando abriu o seu próprio negócio depois de velho e alcançou a liberdade financeira de verdade.

Meus pais quando tinham a minha idade não tinham o poder aquisitivo que eu tenho hoje. Aliás, eu li outro dia que os nossos pais “trabalhavam duro e ganhavam bem para sustentar 3 filhos, casa e cachorro” e eu discordo veemente disso. Sou classe média, nem alta nem baixa. Classe média, média mesmo. Vivi com os meus pais as dificuldades de sustentar a família. Lembro de épocas bem difíceis com meu pai desempregado ( por que a estabilidade não era a dele). E apesar de ter vivido uma infância feliz, a vida de sustentar até então uma filha e uma casa, não era nada fácil para eles. Trabalhavam muito sim, ganhavam bem? Nem tanto.

Mamãe tem 53 anos e ainda paga o financiamento imobiliário dela. Parcela após parcela igual a mim, com meus 26 anos. Os relatos que conheço da juventude deles é que ambos aproveitaram bem a vida, viajaram e passearam por que vierem de famílias que tinham uma boa condição financeira, mas, depois que os filhos apareceram, a gente até passeou, viajou e se divertiu, mas mamãe só realizou o sonho dela de conhecer Paris, agora, com seus 53 anos. Papai, nunca saiu do Brasil, e se fosse, com certeza iria pra Cuba rsrs.

Eu não sei se meus pais realizaram os sonhos que tinham. Mas se não o fizeram, eu tenho quase certeza que a culpa tem dois nomes e sobrenomes: DANIEL E DANIELLE MENEZES.

Mamãe e papai trabalharam muito mesmo. Mamãe tem com o meu irmão mais novo a tal da síndrome da mulher moderna, sabe!? A dor das mães que trabalham fora e passam pouco tempo com seus filhos. O trânsito, a vida caótica e tudo mais, a obrigava levantar cedo e sair antes de nós e voltar lá pelas 20h, quando o jantar em família já havia sido servido. Não vi nada de fácil ou de tranquilo na vida dos dois, mas meus pais fizeram a escolha deles (tenho algumas ressalvas sobre isso, mas é papo pra depois), escolheram ter uma família e dar tudo de bom e do melhor para nós. Valeu papais!

Aí veio a tal geração Y. Eu me considero uma menina responsável. Entrei na faculdade tradicional. Estagiei desde o início e saí depois de cinco anos já empregada. Casei cedo, comprei meu primeiro imóvel cedo, meu carro e meus brinquedos do snoopy, mas almejo algo muito diferente de tudo isso. Fiz a opção de não ter filhos. Nunca Dani? me perguntam. E eu digo- nunca é muito tempo, mas por enquanto a minha escolha é outra.

Eu quero sim essa tal de liberdade da geração Y, por isso gasto meu rico dinheiro do trabalho em viagens, restaurantes e passeios e me arrependo amargamente de ter trazido o peso do financiamento imobiliário tão cedo para a minha vida. Hoje me desfiz do meu carro, por que achei que ele era muito pra mim naquele momento e meu apêzinho tão ricamente mobiliado, está alugado por que eu fui atrás da tal liberdade que eu tanto quero. Todos aqueles bens materiais que me disseram que eu tinha que conquistar, não era a responsabilidade que eu queria ter, entendem? Podia ser o sonho de consumo dos meus pais na geração deles, mas não, não é o meu sonho de consumo na minha geração.

O que eu vejo é que a geração Y talvez esteja perdida, por que muitos deles foram condicionados a viver como os pais mas perceberam que não precisavam. Ou que não querem. Os pais deles, proporcionaram algo de muito valioso: o poder da escolha. Não precisamos formar nossas famílias tão cedo, nem sair da casa deles tão cedo, nem ser sérios tão cedo. Podemos ter a nossa responsabilidade reduzida a ter um emprego e fazer nossa poupança seja lá para qual sonho for. Tem um monte de amigo meu ganhando bem o suficiente para comprar seu apartamento, mas não o fazem por que acham que não é o que esteja faltando na vida deles.

E com isso, eu acho que eu chego no ponto primordial: vida profissional. Os pais da gente ( ou grande maioria) queria a estabilidade. O sonho da minha mãe é que eu fosse uma funcionária pública e, o fato de eu ter meu próprio escritório de advocacia que vai muito bem obrigada, é motivo de preocupação. A geração Y não entende que um bom emprego seja apenas um bom salário. Eles querem desafios, eles querem diversão, eles querem flexibilidade. Muitos até aceitam ganhar menos se tiverem tudo isso e outros jogam carreiras promissoras para o alto por que se sentem entediados. É a geração dos nômades digitais. Fizemos uma descoberta mágica: conseguimos viver com muito menos do que achávamos precisar.

Hoje em dia, a gente quer ser definido por algo muito além da nossa profissão. Não quer ser a mãe funcionária pública, o pai médico, a tia advogada. A gente quer agregar adjetivos diferentes em nossas descrições e, tornar o nosso trabalho parte de nossas vidas e não A nossa vida, percebem a diferença?  É claro que as empresas não estão preparadas para isto. A maioria delas ainda é dirigida por pessoas da geração dos meus pais ou até dos meus avós. Eles não estão prontos para tanta liberdade, eles não estão prontos para o home office, eles não estão prontos para horários flexíveis de trabalho (mesmo que todas essas medidas fossem ótimas até para diversos problemas urbanos nos grandes centros). Não entendem muito bem como alguém consegue ser tão ou mais produtivo fora do escritório. Mas estão preparados para que a geração Y relativize as leis trabalhistas, por exemplo.

Para os nossos pais, o trabalho se reduzia as horas que passavam dentro da empresa. Para nós, hoje em dia que buscamos o brilho nos olhos naquilo que a gente faz, tudo pode ser trabalho, desde que a gente consiga integrar com os outros pontos da nossa vida. Chefe, eu trabalho no sábado sim. Estou indo pra praia, levo meu notebook e pego umas duas horinhas livres lá e faço isso, beleza!?

Eu, Dani, não atendo clientes por whatsapp. Fiz muito lá no comecinho, agora não mais. Por que eles invadem mesmo o meu espaço, mandam mensagens desnecessárias a todo momento e me criam uma ansiedade da qual eu não preciso. Mas principalmente, eu não respondo por whatsapp ou não atendo no final de semana, por que isso não é necessário no meu trabalho, e eu impus limites. Meu marido que trabalha com TI não tem horário. Ele passa finais de semana, ele vira noites, perde algumas coisas sim, mas é lindo o brilho nos olhos que ele tem enquanto tá lá se lascando com os outros amigos para resolver alguma pendenga. É claro que as vezes ele fica cansado e aí, não faz. Repassa para outro coleguinha, marca pra outro dia sei lá. Trabalhar muito para ele não é um problema, mas trabalhar muito sem ser reconhecido, sem plano de carreira, sem ter a flexibilidade de trabalhar home office na emenda de feriado e outras coisas do tipo, é, é um problema e tanto. Invertemos alguns valores um pouquinho.

A geração Y não é essa inconsequência toda. A geração Y apenas bate numa resistência das outras gerações que se acham melhores ( e isso acontece com todo mundo né). A nossa geração tem sonhos nossos, numa realidade diferente. Alguns se dobram e entram no jogo, outros assumem os seus próprios riscos, que embora não seja o de constituir uma família, são tão difíceis quanto. Ou vocês acham que é fácil segurar o rojão de largar tudo, colocar uma mochila nas costas e sair se virando por aí, enquanto todos olham com aquela invejinha torcendo para que ele se ferre e um tio velho possa dizer no natal ” eu sempre disse que essa história não ia dar certo?”. Com certeza não é.

Portanto minha gente, respeitem os sonhos da geração y. Respeitem os ideais, a vontade de ser livres. Nada disso é falta de responsabilidade, tudo isso é respeito em primeiro lugar com a gente e depois com o mundo. Não é abuso, nem mimimi, nem irresponsabilidade não querer que o mundo inteiro participe de suas decisões, elas cabem a nós e ponto, estamos sendo felizes desse jeito, entendam e fiquem felizes com a gente também, vai ser muito mais proveitoso. E eu tenho dentro de mim uma esperança bem Y mesmo. Acho que essa vontade que a gente tem de mudar as regras, os condicionamentos e o certo, pode ajudar a tirar a gente desse buraco que outras gerações nos enfiaram.

É isso!